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Flavianne Vaz

Historiadora, Teóloga e Escritora. Pregadora e Palestrante na área de Família e Educação Cristã. Autora do Livro “Liderando Adolescentes” (CPAD) e de Revistas do Currículo de Escola Dominical da CPAD. Articulista do Jornal Mensageiro da Paz e da Revista Ensinador Cristão. Membro da Assembleia de Deus de Bonsucesso (RJ). Casada com Miguel Melo, mãe da Sarah e dos trigêmeos Guilherme, Fernando e Heitor.

 

O NÃO mais difícil que Deus já me deu

O ano era 2022 quando eu e meu esposo decidimos ter mais um filho. Nossa filha já tinha 9 anos, a pandemia havia passado, e pensamos que seria um excelente momento para dar um irmãozinho a ela. Então, procurei minha médica para realizar os exames e ver como estava minha saúde. Para nossa surpresa, ao concluir os exames, descobrimos que eu já estava grávida! Isso aconteceu pertinho do Natal, e foi uma grande festa em família.

Na primeira semana de janeiro, fui fazer a 1° ultrassonografia para ver como estava o bebê. Como eu já tinha passado por essa experiência e era um exame simples, fui sozinha. Afinal, o que poderia dar errado?

Acontece que o exame foi uma grande surpresa — para mim e para o médico. Descobrimos que eu não estava grávida de apenas um bebê… mas de três bebês!

Essa notícia me pegou totalmente de surpresa. Quem poderia imaginar engravidar naturalmente de três bebês ao mesmo tempo?

Levei algumas semanas para processar essa informação e tentar entender o que Deus estava fazendo.

A probabilidade de engravidar naturalmente de trigêmeos univitelinos é extremamente rara.

A chance estimada de trigêmeos naturais é de 1 a cada 8.000 gestações. Mas trigêmeos univitelinos são ainda mais raros: cerca de 1 em cada 100 milhões de nascimentos.

Trigêmeos univitelinos só ocorrem quando um único zigoto se divide em três embriões — um evento biológico muito raro e ainda pouco compreendido pela medicina. A maioria dos trigêmeos são fraternos (multivitelinos), resultantes da fertilização de mais de um óvulo.

Durante a gestação, me conectei com outras mães de múltiplos e comecei a pesquisar sobre esse tipo de gravidez. Descobri que era considerada de alto risco, com muitas possibilidades de complicações, incluindo doenças graves, prematuridade e até a morte dos bebês.

Eu sabia que eles nasceriam prematuros — só não sabia quando. Mas todos os médicos alertaram: eles teriam que ficar internados na UTI neonatal.

Meu esposo, minha família e eu oramos muito para que Deus tivesse misericórdia.

Pensei: “O nascimento deles já é um milagre! Por que Deus não faria o milagre completo e nos livraria da internação na UTI neonatal?”

Estava confiante de que Deus faria esse milagre. Oramos, participamos de vigílias, fizemos campanhas e votos — tudo em prol da vida dos três meninos que Deus estava nos dando de presente.

Tive uma gestação super saudável, fiz um pré-natal responsável, continuei trabalhando, pregando, dando aulas na Escola Dominical, viajando. Tudo estava indo muito bem. Nossa obstetra estava muito satisfeita com o desenvolvimento seguro da gestação.

Entretanto, quando completei 29 semanas, um exame de rotina revelou uma alteração: o terceiro bebê não estava mais sendo alimentado corretamente pela placenta. Ele estava com restrição de crescimento.

Dois dias depois, repetimos o exame. Uma nova complicação apareceu: o primeiro bebê estava com o fluxo centralizado, ou seja, o sangue estava sendo redistribuído para os órgãos vitais, como cérebro e coração, em detrimento de outros, como rins e pulmões. Fui internada imediatamente.

Conseguimos segurar a gestação até 31 semanas. Depois disso, o parto não podia mais ser adiado.

Ao nascer, o Guilherme estava em profundo sofrimento fetal. Mas o pediatra conseguiu reanimá-lo. Após alguns minutos, pude finalmente ouvi-lo chorar.
Fernando nasceu muito bem, era o maior e mais pesado: apenas 1,4 kg.
Heitor, o terceiro bebê, aquele com restrição de crescimento, nasceu com apenas 890 gramas.

E aquilo que mais pedi a Deus, Ele não me deu. Ele não me livrou da UTI neonatal. Eu me tornei uma mãe de UTI. Eu vi rapidamente seus rostinhos e eles foram levados às pressas para a UTI.

A UTI neonatal é um mundo paralelo. Um hiato na maternidade. Os bebês ficam na incubadora, e não podemos pegá-los a qualquer momento. Eu só consegui segurar meus filhos no colo uma semana após o parto, por causa da instabilidade deles.

Não podemos amamentar. No início, eles não podiam ser alimentados diretamente. Recebiam uma nutrição especial chamada parenteral. Só no terceiro dia foi introduzido 1 ml de leite materno. O leite era coletado por mim, em uma sala especial, usando máquinas. Era armazenado, processado e então entregue por sonda aos meus bebês. Amamentar se tornou um sonho distante.

Na UTI neonatal, vi meus filhos pararem de respirar várias vezes. Acompanhei procedimentos dolorosos. É extremamente difícil ver um bebê precisar de aparelhos para viver, sem conseguir comer ou sequer chorar sozinho.

Eles são vulneráveis, frágeis e enfrentam riscos constantes de infecção. A mãe, por sua vez, não tem a opção do resguardo. Toda a vulnerabilidade do pós-parto se expõe.

Foi extremamente doloroso voltar para casa deixando meus três filhos no hospital, quatro dias após o parto.

Muitas pessoas pensam que prematuridade é só uma questão de peso. Mas não é. Os bebês prematuros não ficam internados para “engordar”. Eles ficam porque nenhum órgão está pronto para a vida. Eles precisam ser gerados fora do útero.

E, nesse processo, tudo pode acontecer. Muitos procedimentos médicos são necessários.
Cada final de dia é uma vitória.
Cada grama adquirida é uma vitória.
Segurar o bebê no colo é uma vitória.

Morei 77 dias na UTI neonatal. Um lugar onde eu nunca quis estar, mas que transformou minha vida.

Ali dentro, aprendi mais sobre Deus, sobre fé, força, perseverança. Fiz amizades com mães incríveis. Conheci a força da intercessão.

Deus não fez o milagre de me livrar da UTI, mas fez dezenas de outros milagres até que meus filhos tivessem alta.

Deus queria que eu conhecesse dores que eu jamais imaginaria, para me conduzir à posição em que hoje estou diante dEle. Um novo coração, quebrantado, foi gerado dentro daquela UTI.

E além disso, Ele enviou Sua Igreja para me sustentar durante todo o processo.

A Igreja de Cristo, que está em todo lugar — inclusive dentro dos hospitais — me apoiou em muitos momentos difíceis. Ali conheci a força da unidade.

Então, aprendemos o real significado de Romanos 12:2:

“...a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável.”

Hoje, só agradeço a Deus por ter dito ‘não’ algumas vezes.

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Flavianne Vaz 

*A CPAD não se responsabiliza pelas opiniões, ideias e conceitos emitidos nos textos publicados nesta seção, por serem de inteira responsabilidade de sua(s) autora(s).

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