Elaine Cruz

Elaine Cruz é psicóloga clínica e escolar, com especialização em Terapia Familiar, Dificuldades de Aprendizagem e Psicomotricidade. É mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense, professora universitária e possui vários trabalhos publicados e apresentados em congressos no Brasil e no exterior. Atua como terapeuta há mais de trinta anos e é conferencista internacional. É mestre em Teologia pelo Bethel Bible College (EUA) e membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Como escritora recebeu o 'Prêmio ABEC de Melhor Autora Nacional' e é autora dos livros “Sócios, Amigos e Amados”, “Amor e Disciplina para criar filhos felizes” e o mais recente, "Equilíbrio Emocional", todos títulos da CPAD.

Deixando de molho

Na minha infância, deixar algumas coisas de molho era uma tarefa diária.

Meus pais tiveram quatro filhos, com uma distância média de quatro anos entre eles, e eu era a filha mais velha, em uma época em que não havia fralda descartável. Quando meus irmãos nasciam, deixar fraldas de pano de molho, que eram movidas de um balde para outro, era uma tarefa cotidiana.

As roupas também eram separadas por cor e, principalmente, as brancas ficavam de molho em baldes com produtos específicos para quarar (quem lembra?) e clarear.

Na cozinha, era habitual colocar o feijão de molho com uma rodela de limão por, pelo menos, seis horas - o que é recomendado até hoje, para reduzir o tempo de cozimento e dissolver as substâncias, como o fitado, que o corpo tem dificuldade de digerir, além de eliminar o risco de distensão abdominal, e da fermentação que provoca gases. Mas além do feijão, vários outros alimentos eram postos de molho, como lentilha, grão-de-bico, ervilha, soja, arroz integral, aveia, centeio, trigo mourisco e algumas castanhas.

Nasci no estado de São Paulo, e uma boa recordação da infância eram as batatinhas colocadas em barris, que ficavam dias sendo “cozinhadas” em um tempero especial, e eram servidas em casamentos e eventos especiais. De forma semelhante, até hoje, algumas carnes também são colocadas de molho. Algumas para dessalgar, como a carne seca ou o bacalhau, e outras para marinar em 'vinha d'alho', como peixes, carnes de caça e de aves, visando trazer um sabor mais aguçado ao prato.
É interessante que, na nossa vida, muitas vezes também precisamos colocar algumas coisas de molho. Há projetos, como o de uma reforma na casa ou da compra de um imóvel, que ficam de molho por um longo tempo, e vamos “trocando a água” por meses, até que finalmente chegamos ao momento propício para a consumação, sabendo exatamente como querermos e o quanto podemos investir.

Quando precisamos fazer uma proposta de trabalho, ou enviar um e-mail importante para pedir desculpas ou dar algumas explicações mais detalhadas, por exemplo, pode ser sábio escrever e deixar de molho no computador, acrescentando, alterando ou eliminando frases ou palavras, até que ele esteja no molde correto para, se for o caso, ser enviado.

O mesmo pode acontecer com relação a uma conversa mais séria com cônjuges, parentes e amigos. Muitas vezes precisamos marinar nossas emoções, adequando o tempero que vamos dar aos assuntos abordados, para não corrermos o risco de ferir ou sermos injustos por conta de emoções descontroladas ou palavras salgadas demais.

A Bíblia já afirma: A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um. (Colossenses 4.6); Tenham sal em vocês mesmos e vivam em paz uns com os outros. (Marcos 9.50).

Será que não estamos precisando deixar nossos ímpetos e vontade de molho por um tempo? Quantos objetos são comprados em um momento de descontrole, que depois ficam esquecidas em nossos armários? Quantas coisas não deixaríamos de fazer ou dizer se não esperássemos para agir ou falar? Quantas atitudes nossas não precisariam ser marinadas por um tempo para se tornarem mais exequíveis ou sensatas em suas aplicações?

Por outro lado, há de haver um tempo para colocarmos as coisas de molho. No caso dos alimentos, se o tempo for demasiado, podemos perder o ponto e até mesmo estragar alimentos, ou podemos dessalgar ou marinar uma carne em excesso, prejudicando a execução do prato. Paralelamente, no caso da nossa vida, acontece o mesmo: há pais que deixam de conversar porque a raiva por conta dos erros dos filhos já passou, e se esquivam de apontar as falhas dos filhos para corrigi-los ao longo da vida. Há cônjuges que vão marinando bons afetos por anos, mas são incapazes de expressá-los dizendo “eu te amo” ou “obrigada por cuidar da nossa família com tanto carinho”. Alguns amam seus familiares, mas simplesmente não os abraçam, beijam ou seguram suas mãos, perdendo todos os doces sabores que temperam as relações humanas.

Que Deus nos ensine a colocar de molho as coisas que precisamos deixar dessalgar, higienizar ou marinar. Mas que sejamos hábeis e certeiros quanto ao tempo, sabendo que os filhos crescem rápido, as oportunidades na vida são passageiras, e que há desafetos antigos que simplesmente precisamos jogar fora, pois vão apodrecer e adoecer nossa tão frágil e complexa existência.

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Elaine Cruz 

*A CPAD não se responsabiliza pelas opiniões, ideias e conceitos emitidos nos textos publicados nesta seção, por serem de inteira responsabilidade de sua(s) autora(s).

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