Elaine Cruz

Elaine Cruz é psicóloga clínica e escolar, com especialização em Terapia Familiar, Dificuldades de Aprendizagem e Psicomotricidade. É mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense, professora universitária e possui vários trabalhos publicados e apresentados em congressos no Brasil e no exterior. Atua como terapeuta há mais de trinta anos e é conferencista internacional. É mestre em Teologia pelo Bethel Bible College (EUA) e membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil. Como escritora recebeu o 'Prêmio ABEC de Melhor Autora Nacional' e é autora dos livros “Sócios, Amigos e Amados”, “Amor e Disciplina para criar filhos felizes” e o mais recente, "Equilíbrio Emocional", todos títulos da CPAD.

A prática do desapego

Não sei como é sua casa. Porém, seja ela grande ou pequena, uma coisa é certa: ela pode ser clean, sem muitas coisas acumuladas, ou pode conter muitos objetos que você nem mesmo se lembra deles. 

Pense no seu guarda-roupa: ele contém roupas que você não usa, ou que nem mesmo cabem em você? Quando caminha na direção da cozinha para o quarto, tem que se desviar de muitos móveis carregados de enfeites? 

Você guarda todas as lembrancinhas recebidas, ao longo dos anos, de festas de aniversário ou casamento? Acumula cremes e maquiagens que sabe que vão perder a validade antes de você conseguir usar?

Há pessoas minimalistas, que só guardam o necessário, usam tudo o que possuem (inclusive jogos de jantar e louças), e que gostam de espaços arejados, não importando se são amplos ou pequenos. Mas há muita gente que compra o que não precisa, guarda o que não necessita, acumula coisas velhas e quebradas, e que acabam jogando fora até mesmo alimentos estocados que passam da validade antes que consigam consumi-los. 

Mesmo quando podemos comprar coisas, e possuímos dinheiro ou espaço, é sempre bom ponderar o quanto de fato precisamos do que temos. Há pessoas tão apegadas a coisas, que não conseguem descartar coisas quebradas e inúteis, e nem mesmo doar os extras para quem precisa. 

A Bíblia nos lembra que a vida não se sustenta na acumulação de bens. Jesus advertiu: “Vede, guardai-vos de toda avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lucas 12:15). Organizar, simplificar e desapegar não é sinal de perda, mas de maturidade espiritual — um reconhecimento de que tudo o que temos é passageiro.

De vez em quando precisamos abrir os armários, identificar o que precisamos, e guardar o que de fato necessitamos ou gostamos muito. Todos nós temos louças de família, e até peças de roupas clássicas, que nunca saem de moda, que sempre serão elegantes e que guardamos com cuidado. Mas também sabemos que temos muita coisa descartável e desnecessária entupindo nossas gavetas e armários. 

A cada dia cresce nos Estados Unidos e na Europa o discurso de desapegar de coisas desnecessárias.  O “Norwegian life-cleaning”, bem conhecido na Europa, está associado ao conceito escandinavo de fazer uma limpeza de vida, e encontra forte ressonância nos princípios bíblicos de sabedoria, mordomia e desapego. Ao longo dos anos, com o avanço da vida, essa prática convida a uma reflexão profunda: o que realmente vale a pena guardar? O que deixaremos como legado? O que de fato é primordial para o momento atual e os dias futuros? 

Quando mantemos apenas o que é necessário e significativo, estamos nos alinhando ao ensino de Provérbios: “Melhor é o pouco com o temor do Senhor do que grande tesouro onde há inquietação” (Provérbios 15:16). Um lar ordenado, leve, reflete um coração em paz, livre do peso do excesso, e da ansiedade gerada pela compulsão em ter ou comprar. 

Com o passar dos anos, precisamos também pensar nas próximas gerações, pois a Bíblia nos chama à responsabilidade para com aqueles que virão depois de nós. O apóstolo Paulo afirma: “Não devem os filhos entesourar para os pais, mas os pais para os filhos” (2 Coríntios 12:14). Assim, organizar o que temos e distribuir com calma e sabedoria o que possuímos é um ato de amor. Desapegar-se conscientemente de coisas poupa os familiares de fardos desnecessários, e deixa espaço para lembranças que realmente edificam.

O life-cleaning, portanto, não é apenas uma arrumação do lar. É o ato de ir distribuindo roupas, enfeites, louças, pequenas coisas que guardamos e que podem ser úteis aos outros. Pode ser também separar as fotos dos filhos já casados, oferecendo a eles material para falarem da própria infância a seus futuros filhos e netos. 

Desapegar é, em última estância, um grande exercício espiritual. Na conversão, precisamos nos desapegar de pessoas, objetos e práticas. E ao longo da nossa caminhada com Deus, necessitamos aprender a alinhar a casa, o coração e a fé, vivendo com simplicidade, generosidade, gratidão e propósito diante de Deus.

Jesus declarou: “Ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não corroem” (Mateus 6:20). Quando organizamos o que é terreno, reafirmamos que nossa esperança não está no que possuímos, mas naquele a quem pertencemos!

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Elaine Cruz 

*A CPAD não se responsabiliza pelas opiniões, ideias e conceitos emitidos nos textos publicados nesta seção, por serem de inteira responsabilidade de sua(s) autora(s).

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