A nossa sociedade exacerba a cultura da identidade, especialmente com a ajuda das redes sociais, que nos convidam diariamente a declarar quem somos, no que acreditamos e quais são nossos valores.
Hoje, é comum que as pessoas expliquem suas atitudes pelo que são, elaborando frases como: “Eu sou nervosa mesmo”, “Eu sou preguiçoso por natureza”, “Eu só sei fazer as coisas do meu jeito”, “Eu sou do tipo que não leva desaforo pra casa”, “Eu sou assim desde sempre…”, “Eu sou assim e pronto!”.
É óbvio que, ao longo do nosso desenvolvimento físico e emocional, vamos internalizando valores e princípios que organizam nossos pensamentos e direcionam nossas ações. Mas quem somos ou o que queremos pode não ser o padrão necessário para fazermos o certo - não podemos nos submeter à tendência humana de justificar erros em vez de transformá-los.
Explicar as falhas pelo que “somos” pode aliviar a consciência por um momento, mas não produz mudança. E é por esta razão que a Bíblia nos chama menos para a autopromoção e mais para a prática silenciosa do que é certo. Assim sendo, precisamos enfatizar menos nossos posicionamentos e autenticidades, e buscar mais atitudes coerentes com a Verdade: “O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Provérbios 28:13).
Necessitamos ensinar nossos filhos, desde pequenos, a desenvolver menos discursos elaborados, e mais atitudes corretas. Há muitos adolescentes com discursos eloquentes defendendo aborto, eutanásia, drogas ilícitas e impureza sexual. Há muitos adultos escondendo erros e pecados, explicando os motivos mas não modificando concretamente seus próximos atos ou decisões.
Devemos construir menos defesas e mais decisões acertadas. Jesus afirmou: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 5:16). São as nossas obras que apontam para quem somos. E a luz que transforma não é a do argumento eloquente, mas a de comportamentos coerentes com o que é correto.
O caminho para a maturidade espiritual passa pela negação de quem somos. Arrependimento verdadeiro produz confissão e ação: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar” (1 João 1:9). O perdão divino não implica em permissão para permanecer no erro, mas aponta para a oportunidade para viver e fazer diferente.
O apóstolo Tiago é claro: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17). Portanto, não devemos gastar energia defendendo nossa imagem, mas nos esforçando para fazer as coisas no modo certo. Devemos investir forças em mudanças de atitude, não apenas reconhecendo onde falhamos, mas decidindo acertar, custe o que custar.
Deus é a Palavra, mas não procura discursos elaborados. Deus é perfeito, mas nós estamos em construção contínua para sermos irrepreensíveis. Deus não procura argumentos elaborados, mas corações quebrantados e mãos dispostas a agir corretamente.
Por mais que esta geração busque explicar tudo pela ótica da identidade ou autenticidade, devemos nos lembrar que nossas tendências naturais são perigosas, e eventualmente mentimos a nós mesmos. Porém, quando nossas atitudes confirmam nossa fé, não precisamos defendê-la com excesso de palavras.
A Bíblia declara: “Sede praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tiago 1:22). Mesmo conhecendo versículos, ou defendendo doutrinas bíblicas, podemos falhar na decisão diária de fazer o certo. O caminho é decidir corretamente diante da tentação, da injustiça e da oportunidade de pecar: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus?” (Miquéias 6:8).
A vida cristã é bíblica, é dinâmica, concreta, vivida de forma racional e consciente. Implica em decisões constantes, muitas vezes contrárias a quem somos. Tal como um vaso nas mãos do oleiro, precisamos ser constantemente quebrados em nossa imagem, moldados em nossa identidade, negando o que desejamos e decidindo, mesmo a contragosto, obedecer à voz divina.
Nossas decisões precisam falar mais alto que nossos rótulos. No fim, não seremos conhecidos pelo que dizemos ser, mas pelo fruto que produzimos.

Elaine Cruz
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